Opinião

A solidariedade também tem contas para pagar

Há sempre uma contradição desconfortável na forma como são tratadas as instituições sociais nos Açores.

Nos discursos, são indispensáveis. Na hora de financiar o trabalho que fazem, parecem ter de provar todos os anos que também precisam de pagar salários, fornecedores, eletricidade e alimentação.

Esta semana, a União Regional das Misericórdias foi clara: há instituições aflitas, com dificuldades para cumprir pagamentos e querem que o financiamento seja atualizado até ao final deste mês.

Este não é um setor marginal. Misericórdias e IPSS cuidam de crianças, idosos, pessoas com deficiência e famílias vulneráveis. Empregam cerca de seis mil trabalhadores nos Açores — trabalhadores que, aliás, têm greve marcada para os dias 27 e 28 de outubro por ausência de atualização das suas condições laborais.

Em junho, o Governo Regional atualizou em 2,4% os valores de alguns contratos de cooperação. E voltou a referir a necessidade de conhecer o custo real destas respostas que está a ser calculado por um estudo que deveria estar concluído em julho. Ora, estamos em outubro e sobre o estudo nada se sabe.

Entretanto, vai-se discutindo se a responsabilidade é de Lisboa ou dos Açores.

Caro ouvinte, pode até haver responsabilidades da República. Mas para uma família com um idoso num lar, para uma criança numa creche ou para um trabalhador que teme pelo seu subsídio de Natal, a geografia da culpa interessa pouco.

Se estas instituições são parceiras do Estado, então não podem ser tratadas como credoras pacientes do Estado.

A política social não começa quando se inaugura uma resposta. Começa quando se garante que ela consegue continuar aberta no mês seguinte.

Pedir solidariedade permanente a quem vive de financiamento incerto não é política social. É transferir  exclusivamente para as instituições um risco que deveria ser mais bem partilhado.

 

(Crónica escrita para Rádio)